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Os desafios do servidor da área de Segurança

Os desafios do servidor da área de Segurança

Qualificação é decisiva para que policiais possam preservar inocentes e a própria segurança

Área de Segurança Pública exige cada vez
mais servidores capacitados (Foto: Agência Brasil)

 

A crise na segurança pública com a ascensão da criminalidade tem atingido todo o país, em especial o Rio de Janeiro. Tanto os servidores quanto a população vivem na insegurança de sair de casa e a cada ano que passa torna-se mais difícil corrigir os erros cometidos que fizeram chegar a essa situação e retomar a ordem pública. 

E para superar essa crise é fundamental a preparação adequada e a qualificação dos profissionais da área de Segurança, não apenas para evitar mortes de inocentes mas, também, para preservar a vida dos policiais e outros agentes de segurança, em situações de confronto. 

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Este, por sinal, é um dos aspectos mais importantes a serem considerados pelo poder público, na opinião do presidente do Sindicato dos Policiais Civis do Estado do Rio de Janeiro (Sindpol-RJ), Marcio Garcia.

“Sem dúvidas, os agentes de segurança estão entre os profissionais que mais necessitam de capacitação continuada, pois lidam com a preservação da vida e da liberdade, os maiores bens do ser humano. O trabalho é arriscado e o treinamento diminui a possibilidade de acidentes, por vezes fatais, que são inerentes a uma profissão de risco como é o caso da atividade policial, seja ostensiva ou investigativa”, declarou.

Ainda segundo ele, o Estado do Rio de Janeiro precisa tomar iniciativa, assumir a responsabilidade e investir na capacitação dos servidores da segurança. 

“Precisamos que o Estado assuma essa responsabilidade, pois tem deixado muito a desejar em termos de capacitação e qualificação, a exemplo do que ocorre com o treinamento de armamento e tiro, no qual temos policiais que se encontram há muitos anos sem praticar e portando armas de fogo.”

Outro ponto que pode auxiliar no combate à criminalidade é o uso de tecnologia por parte dos Comandos de Segurança. Nesse caso, é preciso investir não só no armamento de campo, mas também na inteligência, o que pode inclusive evitar o combate nas ruas. 

A perspectiva é de que o novo governador, Wilson Witzel, busque investir nessa área com o uso de sistemas e aplicativos como o de reconhecimento facial, compra de drones e laboratórios de análise de lavagem de dinheiro, tudo a fim de auxiliar no combate ao crime organizado.

“Quem deseja uma carreira de sucesso na segurança deve estar preparado para o uso dessas novas tecnologias e investir em qualificação no mundo digital”, completou Marcio.

Capacitação requer ajustes, diz presidente do Sindpol-RJ

Para Márcio Garcia, é necessário ter vocação
para ser um servidor na área de Segurança Pública

 

Com relação ao investimento na qualificação e capacitação dos policiais, muitos pontos ainda precisam de ajustes. De acordo com Marcio Garcia, a Academia de Polícia (Acadepol) precisa ser modernizada.

“O projeto pedagógico deve privilegiar o docente policial, que deve ser selecionado através de meritocracia e com critérios objetivos, aproveitando a expertise própria dos policiais, independente do cargo que ocupam na instituição. O banco de talentos da SESEG (Secretaria de Estado de Segurança) foi uma experiência positiva nesse sentido e democratizou a docência nas instituições policiais de maneira justa. Esperamos que não haja retrocesso nesse projeto de estímulo à seleção sem apadrinhamentos”, completou.

A crise financeira que vive o Estado do Rio de Janeiro acaba atrasando o planejamento e evitando que possam ser feitos investimentos para os trabalhadores da segurança pública. Essa calamidade financeira acaba se tornando um dos, senão o, maior desafio para quem trabalha na área.

“O maior desafio é prestar um serviço de excelência sem ter estrutura e recursos humanos e materiais para cumprir essa tarefa. A segurança pública é o principal gargalo para a recuperação econômica do Rio de Janeiro e a recuperação desse serviço público essencial será fundamental não somente para trazer de volta a autoestima dos policiais e demais agentes da segurança, mas também para a população que necessita ser protegida”, apontou o presidente do Sindpol-RJ.

 

 

O servidor da segurança pública, segundo o presidente do Sindpol-RJ, pode ser o mais qualificado possível, ter todos os investimentos possíveis, no entanto, se não tiver vocação e vontade de servir à sociedade, de nada adiantará. 

Quem busca se integrar ao serviço de segurança pública precisa saber que sua vida será outra e entender que seu compromisso será com a população, como apontado por Marcio.

“Para ter sucesso na sua atividade profissional, o principal é gostar do que faz, ter orgulho de ser policial. Do contrário será um profissional frustrado buscando outra atividade através de concurso. No mais, tendo esse “tino” policial, ajuda a perspicácia, resiliência, observação dos fatos a sua volta. É uma profissão que exige muita habilidade e sagacidade a todo momento.”

Planejamento em Segurança Pública é área valorizada

Luciane Patricio: Qualificação permite
desenvolvimento de políticas de longo prazo na área
de Segurança (Foto: Divulgação)

 

Enfrentar a insegurança, atender a ordem pública e lidar com a vida no trabalho são algumas das responsabilidades de quem ocupa uma função na área de Segurança Pública. 

Especialmente no Rio de Janeiro, os servidores da segurança vivem em uma incógnita, isso porque nunca sabem se vão voltar ao lar após um dia de trabalho. 

Por esse e outros motivos, investir em capacitação e buscar qualificar o trabalho dos servidores da segurança torna-se algo fundamental a fim de evitar riscos no campo e melhorar a entrega do trabalho no serviço ao cidadão.

De acordo com a professora da Universidade Federal Fluminense (UFF), Luciane Patrício, “ter quadros permanentes nessa área, com formação multidisciplinar, é um requisito importante para isso, já que segurança pública não é assunto apenas das polícias. Logo, profissionais com formação multi e interdisciplinar poderão atuar compreendendo melhor os problemas que afetam o sentimento de insegurança da população e podem vir a dar respostas mais qualificadas”, afirmou.

A professora acredita que a formação dos quadros pertencentes às Forças de Segurança precisam ser atualizados pelas devidas corporações, isso para poder atender às necessidades e demandas da população e da natureza dos problemas que precisam resolver.

Luciane é Antropóloga, professora adjunta, trabalha no Departamento de Segurança Pública/Instituto de Estudos Comparados em Administração de Conflitos - DSP/INEAC, além de ser Chefe da Divisão de Inovação e Tecnologias Sociais da Agência de Inovação da UFF - AGIR/UFF e Pesquisadora do INCT INEAC.

FOLHA DIRIGIDA - A área de planejamento estratégico de políticas de Segurança é uma boa opção para os profissionais que desejam crescer nessa área? Por quê?
Luciane Patrício - Como toda política pública, formar profissionais que possam atuar de modo qualificado na elaboração, desenvolvimento, avaliação e monitoramento das políticas públicas de segurança é fundamental. No caso da área da segurança pública, esta é uma demanda presente, visto que, sobretudo no Rio de Janeiro, a insegurança mostra-se um problema que afeta a todos. Assim, uma formação qualificada permite a existência de quadros capazes de promover o desenvolvimento de políticas de longo prazo que possam ser sustentáveis e institucionalizadas, e preferencialmente menos sujeitas aos sabores das mudanças de governo. Ter quadros permanentes nessa área, com formação multidisciplinar, é um requisito importante para isso, já que segurança pública não é assunto apenas das polícias. Logo, profissionais com formação multi e interdisciplinar poderão atuar compreendendo melhor os problemas que afetam o sentimento de insegurança da população e podem vir a dar respostas mais qualificadas.

Como avalia os investimentos em capacitação e qualificação feitos, de maneira geral, pelas Forças de Segurança? Eles têm sido feitos na direção correta ou são necessários ajustes?
A formação dos quadros pertencentes às Forças de Segurança (Polícias Civil e Militar, Guardas Municipais, Corpos de Bombeiros e, diante de uma intervenção federal, das próprias forças armadas) é de competência das respectivas instituições. Elas normalmente respondem à missão e atribuições de cada uma das forças. No entanto, estas precisam estar sempre atualizadas diante das necessidades e demandas da população e da natureza dos problemas que precisam resolver e/ou administrar, pois do contrário sua atuação poderá estar informada com valores diversos, o que causa resistência à sua atuação e compromete sua aceitação por parte da população. Por exemplo: diante das manifestações (protestos em geral), é importante que as polícias estejam qualificadas para, ao mesmo tempo, garantir a livre manifestação (um direito de todos) e reprimir eventuais desordens que possam comprometer o exercício desse direito. Devem ser, então, criativas e responsáveis para oferecer respostas adequadas aos problemas que se apresentarem. E, consequentemente, seus investimentos em capacitação e qualificação devem estar subordinados a isso.

 

 

Que tipo de investimentos em capacitação e qualificação seriam os mais adequados, na área de Segurança Pública, para os servidores da área operacional?
Depende do tipo de atividade fim que os mesmos estejam sendo empregados. Isso porque a ‘área operacional’ pode lidar tanto com questões referentes à segurança em áreas turísticas (por exemplo), quanto operações de repressão a crimes violentos propriamente ditos. Para cada atuação há que se ter uma qualificação adequada ao tipo de trabalho a ser realizado. Tal como um remédio para cada tipo de dor. Se o problema é elucidar crimes de homicídio, a qualificação deve responder a esse problema, se é prover segurança em espaços de grande circulação, a resposta será outra.

E para os servidores que atuam nas camadas superiores, voltadas para a gestão? Que tipo de investimentos em qualificação ou capacitação seriam os mais adequados?
No caso das camadas superiores, a principal formação necessária é em gestão e administração pública. Saber elaborar e executar o orçamento público, de acordo a legislação vigente, reduzindo desperdícios e promovendo políticas e ações de longo prazo, institucionais, que sobrevivam às mudanças de governo, dentre outros aspectos, são requisitos fundamentais para a atuação de um bom gestor. Além disso, este deve ser capaz de articular atores estratégicos, para garantir governança e adesão às ações propostas, que devem, preferencialmente, contar com a participação de todos os envolvidos, e não virem “de cima para baixo”, a fim de reduzir resistências na sua execução.

Tem sido comum prefeituras usarem suas Guardas Municipais para ações de Segurança nos municípios. Qual a forma mais adequada de se promover essa utilização?
A forma mais adequada será aquela que esteja subordinada às competências institucionais e constitucionais previstas para as guardas municipais e de acordo com as demandas de cada munícipio, que variam de lugar para lugar. O que é importante é fazer da GM uma força mais próxima dos cidadãos, e não apenas mini polícias, diante da sua vocação em ser mediadora dos conflitos locais. Há casos interessantes no Brasil sobre a atuação de GMs em ações preventivas muito bem sucedidas, cujo trabalho resulta em proximidade desta com a população, aprovação da sociedade e redução do risco para o guarda no exercício do seu trabalho.

Leonardo Diegues
[email protected]

 







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