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O servidor público e o desafio de falar bem

O servidor público e o desafio de falar bem

Professor Telson Pires fala da importância de saber falar em público, que pode ser um diferencial para o servidor

Telson Pires

Telson Pires*

Versa o Antigo Testamento que no princípio era o Verbo, e o Verbo era Deus. Desde os tempos insondáveis a importância da palavra é revelada ao homem. Também Jesus fez uso dela para disseminar virtudes e arrebatar multidões. E tão vigorosa foi a palavra do Filho, que ultrapassou os corredores do tempo, para ainda hoje exercer o seu poder magnífico por todos os cantos da Terra. 

A História mostra que a palavra humanizou o homem embrutecido, abrindo espaço para o desenvolvimento das civilizações. Assim como ontem, falar bem, fazer o verbo penetrar a alma, ou, minimamente, convencer sobre um ponto de vista relativo ao trabalho ou numa roda de amigos, é fazer uso da sublime magia sonora que as palavras continuam proporcionando. 

Nascuntur poetae, fiunt oratores, disse Quintilianus, professor de retórica, na antiga Roma. Os poetas nascem feitos, ao passo que os oradores precisam fazer-se. Noutras palavras, os poetas possuem o dom de penetrar a alma humana, metamorfoseando seus pensamentos através de palavras impregnadas de sentimento.

Já os oradores precisam ser forjados através do enfrentamento do método, isto é, do aprendizado de técnicas de oratória e de argumentação. A história do grego Demóstenes ilustra bem como um homem gago e com dificuldades respiratórias conseguiu superar as adversidades e se tornar um dos mais importantes oradores da velha e gloriosa tribuna helênica, e de toda a humanidade.  

O fato é que a boa retórica se irmana a todas as carreiras que o homem abraça.  Para ser mais preciso, profissionais preparados e com boa fluência verbal estão mais propensos ao sucesso, ao passo que se reservam as tarefas inglórias aos que se acovardam diante da simples tarefa de passar um recado a uma platéia.

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Segundo o escritor Osmar Barbosa, falar bem não é elevar a voz como se fossem trovões, nem gesticular à moda dos cataventos (e acrescento: nem falar pelos “cotovelos”). É preciso saber as técnicas da persuasão e dominar os gestos que sabem ritmar o verbo.

Ao leitor deste texto fica um convite ao desafio: enfrente seus temores e aperfeiçoe a retórica, pois no mundo competitivo hodierno, a qualidade de um profissional é medida por diferenciais. E falar bem é um diferencial determinante e irremediável.

O mar que se apresentará à travessia é tortuoso, mas será possível singrá-lo longe das tempestades. Bastará determinação no aprendizado dos métodos, persistência nos treinos, e, ao sobrevir o entusiasmo do progresso, redobrar a motivação para continuar se aperfeiçoando. 

A convivência com o renomado escritor José Carlos Leal, professor inesquecível da disciplina Retórica Clássica, nos saudosos tempos de faculdade, propiciou o meu despertar para o mundo da oratória. Foi como o toque de mágica que transformou o gago Demóstenes. 

Poucos anos depois lá estava eu iniciando o sacerdócio do magistério superior (e já se vão 11 anos). E foi a vontade de proporcionar crescimento aos meus alunos que me fez quedar à docência da retórica, com muito menos qualidades que o mestre que me ensinou, mas com bagagem suficiente para proporcionar a transformação de muitas pessoas, dentre tantas que participaram do curso de Oratória e Argumentação, no Rio de Janeiro e em outros estados. 

Até hoje é comum manter contato com ex-alunos, que me contam suas façanhas. Não se cogite, porém, que um curso de oratória, qualquer que seja, possa operar milagres. A questão decisiva no processo é a determinação de quem se propõe a falar melhor. Os cursos de oratória apenas apresentam os caminhos e proporcionam as ferramentas. Mas, técnica sem prática é perda de tempo e de dinheiro.

Também não basta a facilidade para verbalizar ou a ausência de timidez se o problema for a falta de domínio do vernáculo. Isto é básico, e não admite tergiversações. Se o domínio da língua é deficiente, a fala será sofrível e constrangedora.

Quanto ao temor pelas apresentações em público (questão corriqueira), convém esclarecer que o medo é uma reação psicofísica do organismo, que lança adrenalina na corrente sanguínea sempre que nos encontramos em situação que foge à normalidade, notadamente quando nos sentimos ameaçados. Todos nós temos medo de falar em público, só que em maior ou menor intensidade. 

Tão exato como a aritmética, quanto maior for o domínio do assunto, do idioma e dos recursos retóricos, menores serão os efeitos adversos gerados pela adrenalina (do “medo”), como os esquecimentos momentâneos (o famoso “branco”), tremores, palpitações, frio na barriga, falta de ar, tonteiras, suores etc.

As linhas apertadas deste texto não propiciariam uma abordagem profunda sobre a arte de falar em público. Cumprirão, porém, o seu desiderato se for possível fazer despertar quem ainda dorme na fantasia de que o bom uso da palavra não é imperativo categórico. 

Vai longe a época em que a força era sinal de superioridade. O tempo é outro, e encontra nas palavras do escritor José de Alencar sua melhor tradução: “A palavra, esse dom celeste que Deus deu ao homem e recusou ao animal, é a mais sublime expressão da natureza”.

* Telson Pires é professor de Oratória e Argumentação, desenvolvedor institucional na Universidade Santa Úrsula (USU), Mestre em Direito (UGF), especialista em Direito Público e Tributário, cientista político, sócio fundador do escritório Pires e Chaves Advogado, presidente do Instituto Brasileiro de Pós-Graduação, Extensão e Cultura (IBPEC), membro da Associação Brasileira do Ensino do Direito (ABEDI) e da Comissão de Gestão Jurídica da OAB/RJ. 

 





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