Folha Dirigida Entrar Assine

Notícia principal

O impacto das novas tecnologias na carreira pública

O impacto das novas tecnologias na carreira pública

Novas tecnologias vêm transformando a Administração Pública e alterando o dia a dia dos servidores

Inteligência artificial já chegou ao setor público

 

Não há dúvidas de que o mundo vive uma era de transformações e grandes avanços tecnológicos que estão modificando a base social, o comportamento e as relações de trabalho. As novas tecnologias da informação e comunicação, que se popularizam cada vez mais, também abriram espaço para pesquisas no ramo da inteligência artificial, sobretudo na última década.

Com o progresso tecnológico vivido pela sociedade, a tendência é de que as novas tecnologias sejam usadas para auxiliar o serviço, promovendo mudanças significativas também a Administração Pública, impactando a sociedade, com a possibilidade de ter um serviço público de melhor qualidade, bem como os próprios servidores. 

A tecnologia como aliada do servidor

Aprenda a adaptar-se a mudanças no serviço público

No que tange aos recursos humanos, as novas tecnologias farão com que muitas carreiras que hoje existem no serviço público sejam extintas. Algumas terão que se remodelar, para atender às necessidades do mundo digital. Além disso, outras novas carreiras surgirão com o tempo, conforme a Administração Pública for impactada pela revolução industrial que está em curso.

Para o diretor da Escola de Governança em Gestão Pública da Universidade Federal Fluminense (UFF), Antonio Batist, embora em um ritmo muito mais lento que o da iniciativa privada, o setor público também passa – e está passando neste exato momento - por transformações, criações e extinções de cargos. 

“Carreira é um conceito mais complexo que cargo, mas passa também por transformações. Há exatamente um ano, o governo federal publicou o Decreto nº 9.262, que extinguiu mais de 60 mil cargos, a maioria deles obsoletos, como operador de máquina copiadora, digitador etc. Há poucas semanas, no processo de transição entre os governos Temer e Bolsonaro, uma das possibilidades apresentadas foi a de reduzir as atuais carreiras do Poder Executivo Federal para menos de 20. Apenas uma curiosidade: nos Estados Unidos, por exemplo, o Executivo federal tem apenas uma única carreira, enquanto o Executivo federal brasileiro tem 309”, destacou.

Antonio Batist aponta que, no governo federal, já não são mais realizados concursos para várias funções, pois perderam sua utilidade ao longo dos últimos anos, sendo uma parte delas em virtude de tecnologias que foram surgindo e outra por terem sido terceirizadas. 

“No plano federal, você não vê mais concursos para porteiro, por exemplo. Mesmo após a extinção do cargo, algumas atividades continuam necessárias, mas vão sendo terceirizadas, tais como copeiros, motoristas, vigias etc. E há certos cargos que, além de extintos, têm suas atividades descontinuadas, como datilógrafo, por exemplo. Embora possa haver exceção, as atividades que mais têm perdido espaço são as operacionais. Quanto mais operacional, maior a margem de risco de se perder espaço.”

O gerente de inteligência competitiva do Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro) - a maior empresa pública de prestação de serviços em tecnologia da informação do Brasil -, Brayam Gonçalves, também acredita que as carreiras cujas as atividades são repetitivas e lineares tendem a perder espaço no serviço público, com o tempo, em virtude das novas tecnologias.

“Aquelas carreiras, cujos servidores desenvolvem atividades mais rotineiras, facilmente serão substituídas pela tecnologia, principalmente com o crescente uso de Inteligência Artificial (IA). Com isso, podemos refletir que carreiras que executam atividades como atendimento ao público e agendamento de serviços (consultas, exames, etc) podem ser facilmente substituídos por robôs com IA. Além disso, já existem IAs que conseguem substituir advogados, jornalistas, médicos e engenheiros que executam atividades rotineiras”, afirmou.

Os servidores serão substituídos por robôs?

Bruno Pacheco diz que os servidores
não podem ser reativos às novas tecnologias

 

Mas, com o passar dos anos, os servidores públicos serão substituído por robôs e inteligência artificial? Não é bem assim. No entanto, para muitos especialistas, as atividades e atribuições de várias carreiras tendem a mudar e, com isso, os servidores terão cada vez mais que se capacitar e especializar para atender a novas necessidades.

“A atualização técnica do servidor é sempre importante, tanto no aspecto tecnológico, como nos conhecimentos teóricos ligados à atividade que exerce. É importante que eles façam cursos nestas novas tecnologias e que sejam focados na atualização das habilidades tecnológicas, com aplicação na atividade exercida pelo servidor”, afirma Bruno Pacheco, que é analista de desenvolvimento da Coordenação Estratégica de Tecnologia do Serpro, empresa do governo federal.

Segundo ele, outro ponto importante é que o servidor tenha uma  atitude aberta com relação às novas tecnologias. “Os servidores não pode ser reativos a sua introdução. Eles precisam ser agentes ativos no processo de evolução de suas atividades.”

Novas carreiras deverão surgir e outras serão mais valorizadas

Embora as novas tecnologias venham extinguir alguns cargos que hoje existem no serviço público, Bruno Pacheco destaca que novas funções, sobretudo de nível superior, deverão surgir na Administração Pública com a difusão das tecnologias de IA e Ciência de Dados. 

“Estas carreiras apoiarão o pessoal de nível superior com o objetivo de introduzir estas técnicas nos processos de trabalho das atividades finalísticas de nível superior”, declarou.

Algumas funções que hoje existem no serviço público tendem a ganhar espaço na introdução das novas tecnologias e da inteligência artificial no serviço público, acredita o diretor da Escola de Governança em Gestão Pública da UFF. “Carreiras fiscais, de controle externo, controladoria, planejamento, TI (Tecnologia da Informação), AFO (administração financeira e orçamentária) são algumas delas”, disse Antonio Batist.

 

 

Para Brayam Gonçalves, as novas tecnologias chegaram para apoiar no fortalecimento e aprimoramento dos serviços prestados pelo governo. Para ele, a transformação digital do governo no Brasil é um caminho sem volta, mas que precisa ter o apoio dos servidores públicos. 

“Uma sociedade hiperconectada está emergindo rapidamente e novas tecnologias como IoT, Nuvem, Big Data e Mobile estão no centro de tudo isso. As estatísticas mostram que, com a difusão da IoT, o número de objetos conectados a cada pessoa aumentou e continuará aumentando. Os serviços baseados em nuvem permitem que os usuários acessem de maneira conveniente o conteúdo e os serviços que desejam de qualquer lugar. Um resultado dessa conectividade difundida é mais serviços governamentais eficientes e fáceis de usar, o que leva a um maior conforto e conveniência para os cidadãos. Mas para isso, nós servidores temos que ser catalisadores dessa mudança.”

Veja a seguir entrevista com o gerente de inteligência competitiva do Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro), Brayam Gonçalves

Brayam Gonçalves: "Acredito que a maioria
dos cargos no serviço público sofrerá uma remodelagem
com o uso de novas tecnologias

 

FOLHA DIRIGIDA - Em virtude das novas tecnologias, existem muitos cargos no serviço público que tendem a ser mais valorizados e outros que precisem de especialização maior ou até mesmo necessitem de uma remodelagem para se adequar às novas necessidades?

Brayam Gonçalves - Acredito que a maioria dos cargos no serviço público sofrerá uma remodelagem com o uso de novas tecnologias. A necessidade de tomada de decisão baseada em análise de dados é cada vez maior, tanto no serviço público quanto no mercado privado, e a tecnologia é essencial para que isso ocorra, isto é, a tecnologia é um fator fundamental para a busca da transformação digital do Governo. Portanto, as pessoas que ocupam e ocuparão cargos públicos precisam de competências em análise de dados, modelos preditivos e ferramentas para automatização de decisão, uma vez que o volume de dados que apoiarão a tomada de decisão para a construção de políticas públicas será cada vez maior. Com a digitização do Governo, essas competências serão essenciais e serão cada vez mais solicitadas.

Especificamente em relação ao serviço público, quais cargos tendem a passar por essas transformações?

Acredito que a maioria dos cargos, mas destacando alguns: cargos de tomada de decisão (ministros, secretários, etc), de auditoria/fiscalização e de TI.

Quais carreiras do serviço público tendem a perder espaço e até mesmo serem extintas neste cenário de surgimento de novas tecnologias?

Carreiras que tenham atividades lineares, repetitivas e rotineiras e que sejam facilmente substituídas por tecnologia, principalmente com o crescente uso de Inteligência Artificial (IA). O principal objetivo dos sistemas de IA é executar funções que, caso um ser humano fosse executar, seriam consideradas inteligentes. É um conceito amplo e que recebe tantas definições quanto  damos significados diferentes à palavra Inteligência. Podemos pensar em algumas características básicas desses sistemas, como a capacidade de raciocínio (aplicar regras lógicas a um conjunto de dados disponíveis para chegar a uma conclusão), aprendizagem (aprender com os erros e acertos de forma a, no futuro, agir de maneira mais eficaz), reconhecer padrões (tanto padrões visuais e sensoriais, como também padrões de comportamento) e inferência (capacidade de conseguir aplicar o raciocínio nas situações do nosso cotidiano). Com isso, podemos refletir que carreiras que executam atividades como atendimento ao público e agendamento de serviços (consultas, exames, etc) podem ser facilmente substituídos por robôs com IA gerenciamento com mais eficácia essas atividades e entregando relatórios para melhorar a tomada de decisão, se, por exemplo, há a necessidade de mais médicos ou equipamentos em um hospital devido ao aumento de demanda ou se é algo sazonal. Além disso, já existem IAs que conseguem substituir advogados, jornalistas, médicos e engenheiros que executam atividades rotineiras.

Muitas pessoas temem que as novas tecnologias vão extinguir muitas carreiras existentes no serviço público. Embora isso possa ser verdade, a tendência também é que a Administração Pública necessite criar muitas outras novas carreiras para atender às necessidade que vão surgir? A médio e longo prazo, quais novas carreiras deverão surgir no serviço público?

A transformação digital será o grande catalisador para o surgimento das chamadas cidades inteligentes. De acordo com a consultoria Navigant Research, os investimentos em infraestrutura para montagem de "smart cities", ou cidades inteligentes, em todo o mundo, podem chegar a US$ 27,5 bilhões em 2023, o triplo em relação aos US$ 8,8 bilhões projetos para 2014. No Brasil já existem iniciativas, e uma carreira que será necessária é a de analista de cybercidade ou de cidade inteligente. Ele será responsável por garantir a segurança e funcionalidade da cidade ao manter o fluxo saudável de dados (ambientais, populacionais, etc) pelo sistema. Outra carreira é o gerente de equipe humanos-máquinas, responsável por desenvolver um sistema de interação para que seres humanos e máquinas conversem melhor, o que aprimora essa equipe híbrida. E por fim, acredito que um controlador de estradas será necessário para monitorar, regular, planejar e manipular espaços aéreos e estradas, programando plataformas automatizadas de IA usadas para gerenciar espaços de carros e drones autônomos, por exemplo.

Tendo em vista o avanço tecnológico vivido pela sociedade, um conselho que pode ser dado aos servidores da ativa, para que possam continuar sendo úteis ao serviço público, é o investimento em especialização tecnológica?  É fundamental que os atuais servidores tenham este olhar e busquem sempre manterem-se atualizados com as novas tecnologias?

Os servidores da ativa devem acompanhar as evoluções da tecnologia e procurar se relacionar com elas. É importante saber o que essas tecnologias são capazes de fazer e como você pode usufruir delas para melhorar a resolução dos problemas do dia a dia do servidor. Se o servidor não se relacionar e não souber o que elas são capazes, certamente ficará para trás e poderá ser substituído facilmente.

Como o serviço público tem utilizado a inteligência artificial? 

Existem vários exemplos. A Controladoria Geral da União (CGU) possui um sistema para encontrar indícios de desvios na atuação de servidores e outro para fiscalizar contratos e fornecedores. Já o Tribunal de Contas da União (TCU) possui o sistema chamado Alice, que apoiam os auditores na busca por irregularidades em processos de contratação. Na Caixa, existe a assistente virtual Aixa, que auxilia empregados e prestadores de serviço na resolução de problemas de tecnologia. Nós do Serpro também temos o mesmo serviço internamente, o Govi.

A tendência é de que cada vez mais seja utilizada a inteligência artificial para auxiliar a administração pública? Qual o impacto que isso trará para os servidores públicos?

Com certeza. Como o volume de informações cresce de forma exponencial, não tem como termos pessoas analisando esse mar de dados para tomar alguma decisão. A IA junto com o Big Data Analytcis apoia com esse poder de análise de grande volumes de dados e indicando probabilidades de análise para os servidores, ajudando-os a serem  mais assertivos e mais produtivos. Além disso, com vários servidores "ensinando" aquela IA, no futuro ela ficará cada vez mais precisa no auxílio das atividades para a qual ela foi criada.

Qual será a relação entre governo, servidores e sociedade, dentro desse cenário das novas tecnologias?

As novas tecnologias chegaram para apoiar no fortalecimento e aprimoramento dos serviços prestados pelo Governo. Já é um caminho sem volta a transformação digital dos Governos pelo mundo e não será diferente aqui no Brasil. Hoje, praticamente qualquer cidadão do país possui um smartphone e consome serviços por ele. Porque não fazer isso para os serviços de governo também? As novas tecnologias permitem que o governo e a sociedade criem uma sinergia melhor porque abre diversas possibilidades de entender como esse relacionamento acontece. Já temos exemplos disso por meio da participação digital da Sociedade (ex.: Orçamento Participativo de alguns Estados, Consultas Públicas no participa.br, dentre outros), aplicativos de governo onde o cidadão informa buraco na rua, situações de perigo, de violência e etc. Ou seja, é o cidadão ajudando o governo a construir uma sociedade cada vez melhor e ele espera que o Governo use este canal de forma mais ampla, eficiente e eficaz. 

Uma sociedade hiperconectada está emergindo rapidamente e novas tecnologias como IoT, Nuvem, Big Data e Mobile estão no centro de tudo isso. As estatísticas mostram que, com a difusão da IoT, o número de objetos conectados a cada pessoa aumentou e continuará aumentando. Os serviços baseados em nuvem permitem que os usuários acessem de maneira conveniente o conteúdo e os serviços que desejam de qualquer lugar. Um resultado dessa conectividade difundida é mais serviços governamentais eficientes e fáceis de usar, o que leva a um maior conforto e conveniência para os cidadãos. Mas para isso, nós servidores temos que ser catalisadores dessa mudança.

A integração de dados é fundamental para o futuro do governo digital, onde organizações governamentais conseguirão compartilhar e colaborar umas com as outras. Essa colaboração torna o Estado mais produtivo e permitirá que os agentes públicos tomem decisões imediatas e lidem com seu trabalho de onde estiverem. Tornando isso sustentável ao longo dos anos, o governo digital será inteligente e cada vez melhor do direcionamento de políticas públicas para a Sociedade Brasileira.

Leonardo Diegues
[email protected]

 

 







Cadastre-se e tenha acesso completo ao conteúdo do Folha Dirigida

Comentários