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LER e Dort são doenças que afetam milhares de servidores

LER e Dort são doenças que afetam milhares de servidores

Pesquisa mostrou que, entre os anos de 2007 e 2016, 67.599 casos de LER/Dort foram notificados no país

Selma Merenlender diz que servidores que realizam
trabalhos burocráticos são os mais afetados com LER


De acordo com um levantamento de 2018 do Ministério da Saúde, as Lesões por Esforços Repetitivos (LER) e os Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho (Dort) são as doenças que mais acometem os trabalhadores no País, tanto no serviço privado quanto no público. E, dependendo da área de atuação do concursado, a incidência acaba sendo maior. 

A pesquisa mostrou que, entre os anos de 2007 e 2016, 67.599 casos de LER/Dort foram notificados. O total de reclamações sobre essas duas doenças cresceu 184% nesse período, passando de 3.212, em 2007, para 9.122 casos em 2016. Diante desses dados, a reumatologista Selma Merenlender, que é membro da comissão de Osteoartrite da Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR), ratifica que LER e Dort afetam, também, os servidores públicos, “em especial os que atuam em funções burocráticas e sedentárias”.

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Servidores devem cuidar da saúde física e mental

A médica cita que os servidores que passam muito tempo trabalhando em frente ao computador, bem como bancários e profissionais da área da saúde, como enfermeiros, médicos e técnicos de enfermagem - que precisam fazer esforços para mobilizar pacientes no leito, em especial no setor de emergências – são os mais propícios a desenvolver tendinites e sinovites dos membros superiores.

Selma também pontua que essas doenças ocorrem mais em mulheres, em especial as lesões por esforço repetitivo. Elas acumulam funções com o serviço doméstico, e fazem uso repetido dos membros superiores. A faixa etária mais acometida está entre os 30 e 50 anos, pois as lesões tomam tempo para se estabelecer”, explica.

Para os servidores que já desenvolveram algumas dessas doenças, a reumatologista orienta para que eles se mantenham em tratamento médico e fisioterápico, e evitem o esforço repetido que causou a lesão. 

“A fisioterapia é necessária tanto na fase aguda quanto na crônica, e tem papel fundamental na reabilitação funcional. E em casos mais intensos, é necessária a troca de função. Com frequência, nas crises agudas, os trabalhadores necessitam de afastamento do trabalho. Inclusive, há casos de aposentadoria por invalidez”.

Já os concursados que ainda não têm alguma LER nem Dort, Selma Merenlender dá algumas dicas de prevenção. “Evitem posturas viciosas e esforços repetidos, participem de ginástica laboral, realizem os exames periódicos da empresa e usem o equipamento de proteção individual para a função, caso necessário”. 

Servidora tem problemas e diversos afastamentos

Jurema Santos sabe bem o que é ter essas doenças. Professora do Instituto Nacional de Educação de Surdos (Ines) desde 1991, a servidora desenvolveu síndrome do túnel do carpo, que começou com a LER, artrose no ombro esquerdo e contratura no lado esquerdo da cervical. Ela relembra que as dores começaram em 1989, antes de ingressar no instituto, quando já trabalhava com surdos. 

“As dores começaram na mão, no polegar, e depois, quando entrei no Ines, continuei trabalhando direto e as dores foram piorando, e paralisando a minha mão. Depois, passou para o cotovelo e ombro e, depois, resultou na contratura na cervical, na qual senti dores e tontura e comecei a fazer vários tratamentos. Pelo diagnóstico da médica, a lesão por esse esforço repetitivo que adquiri foi porque eu dava aulas durante quatro horas seguidas de segunda a sexta, com intervalo apenas de 15 minutos”, pontua.

A servidora recorda que, quando ingressou no Ines, não havia intérpretes de Libras para que os professores pudessem recorrer. Por isso, seu trabalho era dobrado, pois durante um período ela foi tradutora/intérprete também. 

“Além do meu horário de aula, ainda havia um outro período em que eu fazia tradução. Tenho certeza que foi por conta disso. Essa síndrome do túnel do carpo é algo comum nos intérpretes. Por isso que eles têm que fazer revezamento. Um intérprete não fica quatro horas trabalhando direto como um professor que dá aula em língua de sinais direto. Mas o professor, ao contrário, não tem outro substituto para ficar no lugar dele para poder descansar a cada 20 minutos, para não haver lesão”, destaca. 

 

 

Não é apenas no ambiente de trabalho que a servidora do Ines sentia as dores causadas por essas doenças, mas também fora do âmbito profissional. 
“Fui perdendo um pouco da sensibilidade para algumas coisas, como lavar louça. Lavo um pouco e paro. Não posso ficar muito tempo na mesma postura, pois só vai piorando. Tenho dificuldade, também, para botar um brinco, e não consigo segurar um prato em um restaurante self service com a mão esquerda. Tenho que apoiá-lo em algum lugar e ir me servindo com a mão direita. Além disso, foi ficando mais difícil dormir para o lado esquerdo”.
 
Quando as dores começaram, Jurema Santos conta que gastou muito dinheiro fazendo ginástica holística, shiatsu e outras terapias alternativas, pois, na época, os planos de saúde não cobriam esses tipos de tratamento. 

“Era o que mais me aliviada, para eu não precisar ficar tomando remédio direto. Hoje, tenho que pagar um bom plano que cubra acupuntura e RPG. Continuo fazendo fisioterapia e voltei à academia, mas para alongar a musculatura. Estou fazendo hidroginástica também”.

Jurema revela que, ao longo desses quase 30 anos no instituto, precisou se ausentar muitas vezes do trabalho. “Sentia muita dor, minha mão paralisava, enfim. A médica me disse que eu precisava me afastar, nem que fosse por uma semana, para poder melhorar”. 

Questionada qual era a posição do instituto quando ela se ausenta por esse motivo, a servidora frisa que “o Ines não pode questionar, porque é direito do servidor público ter esse tipo de afastamento. Está na legislação. No geral, os órgãos públicos não têm que questionar quando há um laudo e todas as perícias mostram lesão, degeneração de cartilagem, óssea”, conclui. 


Giulliana Barbosa
[email protected]

 

 







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