Há 24 anos como gari, Renato Sorriso detalha sua rotina na profissão

Renato Sorriso conta sua trajetória e rotina após a aprovação no concurso Comlurb e revela: ‘sou melhor como gari e pior como artista’

A carreira pública traz a versatilidade de atuar em diversas áreas. O cargo de gari, por exemplo, permite que o servidor desempenhe muitas funções essenciais para a cidade. Imagine como as ruas, praças e córregos ficariam sem a presença desses profissionais?

No Rio de Janeiro, um funcionário da Companhia de Limpeza Urbana (Comlurb) se destaca. É Renato Luiz Feliciano, que varre uma mesma praça na Tijuca, Zona Norte da cidade, desde 1995. Sua vida passou por uma grande mudança quando ele resolveu sambar durante a limpeza do Carnaval.

Foi aí que o gari se viu estampado nos jornais de todo país com o nome Renato Sorriso. Uma referência a sua principal característica: a alegria pelo trabalho. Desde então, ele já levou a profissão para diversos países. Sempre com muito samba no pé.

Com uma vassoura na mão e disposição para trabalhar, Sorriso viajou para mais de dez países e participou do encerramento dos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012.

Renato Sorriso sobre carreira como funcionário público:
'nasci para ser gari' (Foto: Prefeitura do Rio)

 

Mesmo com a fama repentina, até hoje, ele faz a limpeza da mesma praça, na qual conversou com a equipe da FOLHA DIRIGIDA. E sabe reconhecer suas raízes: “É da vassoura que eu varro meu chão, é da vassoura que eu sustento meu pão”.

Apesar de modificar os olhares de muitas pessoas sobre a atividade de gari, Sorriso aponta o preconceito como o principal desafio da carreira.

"As pessoas ainda pensam que só terno e gravata que é importante. Antigamente, quando alguns garis pediam água, as pessoas colocavam em copo de plástico. Também não sentavam perto do gari no ônibus. Mas, quando tem uma enchente, ligam correndo para o gari”, reflete.

Para ele, a sociedade precisa evoluir e entender o verdadeiro papel desses profissionais para o município.

"O gari tem o compromisso de manter a cidade limpa, mas a obrigação é da população de respeitar o espaço público. O gari está para conservar a cidade. ‘Ah se não sujar o gari não trabalha’. Tá errado! Tem rua que é varrida três vezes por dia para manter um espaço limpo e tem pessoas que não entendem isso. Vamos parar para pensar!"

Sorriso dispara que já recebeu inúmeras propostas para sair da Comlurb, mas não aceitou. “Sou melhor como gari e pior como artista. Eu vim à Terra para ser gari e para mostrar as pessoas que a nossa diferença é muito grande perante a nação”.

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Renato Sorriso e sua rotina de trabalho

Sem moleza. Para chegar ao trabalho, Renato Sorriso acorda às 04h30 e pega dois ônibus. Sua rotina na Comlurb é marcada por oito horas diárias dedicadas à conservação das ruas e praças.

“Troco de roupa, bato o ponto, tomo café da manhã e vejo minha ordem de serviço. Chego na praça por volta de 06h05 e começo minha rotina de trabalho. Paramos para almoçar e retornamos em seguida. Ao todo, são oito horas de trabalho. Nós temos o compromisso de manter a cidade limpa. O gari está para conservar a cidade”, detalha.

Mas, ele nem sempre teve o sonho de ser gari. Até chegar a esse cargo, Renato Luiz já foi vendedor de picolé, camelô, trabalhou em loja de móveis e em cervejaria. Foi quando em 1994 foi publicado o edital do concurso Comlurb com vagas para gari.

Desempregado, o carioca viu ali uma oportunidade para mudar de vida. Com a ajuda de familiares, pagou a inscrição, fez a prova e conseguiu a classificação.

"Eu sou maior exemplo para as pessoas. Em 94 eu estava desempregado, passei fome, necessidade. Fiz a inscrição em 95 para o concurso da Comlurb, estava desempregado, era camelô nesta época. Minha mãe pagou a taxa de inscrição. Fui chamado em dezembro de 95 para trabalhar", conta.

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Esforço físico para desempenhar a função

De lá para cá, sua rotina já foi marcada por diversas experiências proporcionadas pelo serviço público. Isso porque depois da admissão, os garis passam por um período de adaptação, em que são apresentados as diversas áreas de atuação na Companhia.

Renato denomina esse tempo como uma verdadeira ‘prova de fogo’.

“Fui trabalhar no caminhão, na varredura, na capina, limpando as encostas, os rios. Nesse período, muitas pessoas desistiram. Mas, não vou negar. Nós sofremos porque ainda não conhecíamos as ferramentas de trabalho”.

Após essa adaptação, os funcionários são encaminhados as gerências da cidade. Até então conhecido como Renato Luiz, ele foi designado a trabalhar na coleta de lixo.

“Os caras do caminhão devem ser aplaudidos de pé. Eu não aguentei. Na primeira viagem, já estava desmaiando, suado, cansado”, relembra.


Determinado, pediu a transferência para varredura em uma praça, onde trabalha há 23 anos. “Quando assinei o contrato para ser gari, sabia que teria que dar o meu melhor. Hoje, a empresa tomou outra proporção e expandiu suas áreas de atuação”, revela Sorriso.

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A vassoura como seu estandarte no samba

Sua história com o Carnaval começou em seguida. É comum que a Comlurb faça escalas para que os garis trabalhem na limpeza nesse período do ano. Renato foi chamado para atuar na Marques de Sapucaí, durante os desfiles das escolas de samba do Rio.

Ele conta que não aguentou escutar aquela batida sem sambar. Com seu jeito brincalhão e espontâneo chamou a atenção do público enquanto limpava o Sambódromo.

“Da segunda para terceira escola, eu comecei a sambar. Não me aguentei. As arquibancadas já estavam começando a gritar ‘samba, samba’. Logo depois me chamaram para voltar nos outros dias para sambar”.

Não é preciso nem dizer que ele se tornou o sucesso daquele carnaval. Foi capa de jornais e revistas. Hebe Camargo, inclusive, o convidou para subir ao camarote e ir ao seu programa de TV, em São Paulo.

Em seguida, recebeu convite para desfilar no Fashion Week da capital paulista. Porém, ele ainda era apenas o Renato Luiz que sambava no carnaval do Rio.  Até que durante uma palestra dispararam: “Para de sorrir, Sorriso”, em referência ao seu semblante e bom humor. Foi então que seu nome virou Renato Sorriso.

“Imagina você pegar uma vassoura mal-humorado e varrer de qualquer jeito”, indaga.

Ele reconhece seu papel social como funcionário público e sua importância para desmistificar a questão dos garis, por vezes invisíveis para sociedade.

“A imagem de lixeiro na rua começou a mudar. Era comum falar: ‘Se você não estudar, vai ser lixeiro’. Hoje, somos conhecidos como garis. Os valores mudaram. É preciso respeitar quem está em cima e apoiar quem está embaixo”, conclui.

A verdadeira história de como nasceu o Sorriso