Dramas familiares não impedem a conquista da vaga

A história desta semana é a de Guydion Custódio, de 22 anos, coordenador substituto de logística da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), concurso para apenas uma vaga, no qual ele foi o único classificado. “Essa foi a minha maior conquista”, disse o servidor, desmistificando o fato de que é “impossível” passar em concursos com essa oferta.

A história desta semana é a de Guydion Custódio, de 22 anos, coordenador substituto de logística da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), concurso para apenas uma vaga, no qual ele foi o único classificado. “Essa foi a minha maior conquista”, disse o servidor, desmistificando o fato de que é “impossível” passar em concursos com essa oferta. Pode-se dizer que a trajetória de Guydion, que começou há dez anos, é formada por outras conquistas que não podem deixar de ser destacadas. “Minha história com concursos envolve períodos conturbados, altos e baixos, interrupções e outros ‘acessórios’, que nós concurseiros colecionamos”, comenta.
 
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Em 2007, aos 14 anos, Guydion sonhava seguir carreira militar. Guiado pela sua mãe e pela avó, decidiu prestar o concurso do Colégio Naval. “Iniciei os estudos como qualquer adolescente, sem muito foco e com pouca orientação”, disse. Naquele ano, não conseguiu realizar a prova por um erro trivial: não leu o edital! “Fui até o local de prova com uma cópia colorida e autenticada da identidade e, impedido de realizar o exame, voltei para casa frustrado”, revelou.
 
Mas aquele ambiente, com militares fardados, foi o impulso para o ano seguinte, 2008. “Decidi conversar com minha mãe, e pedi para parar de estudar no ensino regular, já que no Colégio Naval haveria de cursar novamente as séries do ensino médio e, na certeza de que passaria, não havia porque continuar na escola, podendo dedicar todo meu tempo ao concurso.”  Naquele ano, Guydion se dedicou bem mais, já tinha alguma noção da matéria e já se conhecia melhor. Apesar disso, não teve sucesso na prova e percebeu que tinha de estudar ainda mais. “Entendi o que era concurso, o que era disputar mais de 200 vagas com pessoas de todo o Brasil.”

Problemas pessoais  e adiamento de sonhos

Em 2009, com 15 anos, Guydion faria 16 logo após a prova, e a idade máxima para a admissão era 17. Segundo ele, tudo estava calculado. Mas problemas pessoais adiaram seu sonho. “Meu ex-padrasto abandonou minha mãe logo após ela ter dado à luz meu irmão mais novo, em abril daquele ano. Depois disso, ela entrou em depressão pós-parto profunda, o que resultou numa psicose puerperal. Ela não dormia, não tomava banho, não se alimentava, não falava”, comenta. Com isso, Guydion começou a revezar com sua avó os cuidados com o irmão recém-nascido. O jovem diz que ficava acordado, vigiando-o durante a noite, e a avó assumia pela manhã. Nada mais fluiu em termos de estudo dali para a frente e, ainda em abril, o jovem conheceu aquela que se tornaria sua noiva.

Os meses passaram e chegou a data da prova do Colégio Naval. Apesar de toda a situação pela qual passou, Guydion tinha bagagem e estava confiante. No dia anterior à prova, sua avó o colocou para dormir carinhosamente e disse: “Hoje eu fico de noite. Descanse. Amanhã você tem uma prova importante”. E essas foram suas últimas palavras.
 
Por volta das 23h30, Guydion acordou com um alvoroço em casa. Todos chorando. Sua avó agonizava no sofá. “Tentei de tudo, mas ela faleceu em meus braços. Infarto fulminante. Era hipertensa e estava em tratamento há anos. Passei a noite no hospital, aguardando sua certidão de óbito.” Guydion saiu do hospital atônito e foi fazer a prova. Não passou por apenas uma questão. A vida particular do jovem fez adiar os projetos, deixando-o sem direção. Tentou voltar ao ensino regular, para terminar o ensino médio, mas sem sucesso, pois não se adaptava, sendo um período conturbado, segundo ele. Nesse meio tempo, fez um curso de Eletricista como jovem aprendiz que, na visão dele, foi de grande valia, fazendo-o pôr a cabeça de volta no lugar.

Retomada e força  para seguir caminho

Acabou realizando a prova do Colégio Naval em 2010 e foi aprovado na primeira fase, mas perdeu os prazos. Depois, Guydion se matriculou no supletivo do ensino médio, concluindo-o em 2011, meses antes do alistamento militar. Antes de pegar o diploma, pensou em fazer concursos. “Em 2011, prestei meu primeiro concurso civil, do Banco do Brasil. Fui muito bem nas matérias de conhecimentos básicos e péssimo nas específicas. Devo ter ficado com a 6.000ª colocação, mas curti a experiência.”

Como Guydion sonhava em seguir carreira militar, acabou optando por servir ao Exército. A experiência, segundo ele, foi boa, inclusive foi condecorado Praça Mais Distinta no ano de 2012. A rotina de recruta, no entanto, é bem corrida, o que acabou motivando Guydion a analisar mais concursos e, no ano de seu alistamento, decidiu prestá-los. “Estudava em pé no trem, no descanso do serviço, no ônibus, nas filas, enfim... Devo ter feito uns sete concursos naquele ano. Lembro-me do Procon, Detran, prefeituras, câmaras municipais, entre outros.

Reprovado, aprovado, mas nada de classificação. O jovem estava exausto e já pensava em fazer cursos e colocar currículos depois do quartel. O penúltimo concurso que fez em 2012 foi anulado, por suspeita de fraude. O último que prestou, disputando 100 vagas com 12 mil candidatos, se Guydion foi até o local de prova, foi por insistência de sua noiva. Fez a prova e logo depois recebeu a notícia de que o concurso estaria suspenso, sem motivos claros. Pensou: “Ano eleitoral, isso é carta marcada.” Desistiu.

Conquistas e glórias na trajetória para o sucesso

É aqui que a história toma outro rumo. Semanas depois, o pai de Guydion disse que uma amiga viu seu nome no jornal, em primeiro lugar. O jovem achou até que era brincadeira, não fazia ideia do que ele estava falando, mas foi pesquisar no Google. Primeiro lugar no cargo de auxiliar administrativo da Prefeitura de Nova Iguaçu. No mesmo período, foi notificado da aprovação no vestibular da Universidade Federal Fluminense (UFF), para Tecnologia em Sistemas de Computação a distância, quinto lugar. Na prefeitura, em meses foi designado chefe do setor de Certidões. Pouco depois, virou chefe da Divisão de Análise de Benefícios. “Percebi que o que eu gostava mesmo era de servir à sociedade, não necessariamente de farda. Queria conhecer melhor, ter mais envolvimento com o serviço público.”

Com isso, Guydion prestou vestibular para o bacharelado em Administração Pública da UFF. Há tanto tempo sem prestar concurso, com ajuda das matérias estudadas na faculdade, Guydion voltou a ter uma rotina de estudos para concurso no início de 2015. No primeiro semestre do ano, saiu o edital para a UFRRJ, com apenas uma vaga de assistente em administração. “Em um primeiro momento, ignorei, pois pensei que não teria a sorte de passar em um concurso com uma vaga.” Mais uma vez encorajado por sua noiva, tirou férias na prefeitura e dedicou-se a essa prova.
 
A chave para a aprovação foi a disciplina e a abdicação total das coisas de que ele mais gostava. “Segui rigidamente um cronograma e avaliei minha evolução através de simulados que eu mesmo preparava.” O resultado não poderia ser diferente. Primeira colocação isolada, sem empates. Guydion foi aprovado e único classificado nesse concurso,  desmistificando, para ele e para muitos, essa questão de concursos com poucas vagas. “Troquei o ‘por que eu?’ pelo ‘por que não eu?’” O jovem já está na UFRRJ há alguns meses e, se sentindo muito feliz. “Hoje, uma frase motivacional que costumo dizer aos amigos é: concurso público é igual a dieta: é impossível levar a sério e não atingir os objetivos.”, finalizou.

Se você também conquistou sua vaga no serviço público e é um exemplo de superação, envie seus contatos para o e-mail [email protected] com.br. Em breve, sua história poderá ser contada nesta coluna

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