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O mito da entrevista


Frio na barriga, mãos suadas, pernas trêmulas. A cena clichê ainda se repete entre os candidatos à procura de uma oportunidade que se deparam, ao longo do caminho, com a tradicional entrevista. O encontro com o entrevistador, normalmente, finaliza seleções e assusta até os mais experientes, através do imaginário, mistura de ansiedade, nervosismo e expectativa, que toma conta da hora decisiva.
 
De acordo com o levantamento promovido pelo Centro de Integração Empresa-Escola, o Ciee, a etapa é a mais temida por jovens em processos seletivos para estágio. Na enquete virtual, 37% dos consultados afirmaram se assustar, sobretudo, com o momento em que precisam ficar cara a cara com profissionais de Recursos Humanos. A entrevista pessoal superou, inclusive, a dinâmica de grupo, que se posicionou em segundo lugar com 22% dos votos. Em seguida, encontram-se elaboração de currículo (20%), testes de conhecimento (12%) e testes psicológicos (9%).
 
Para Eduardo de Oliveira, superintendente de operações do Ciee, o resultado revela uma mudança no perfil da juventude. A alta competitividade do mercado de trabalho e a inexperiência explicam o receio, mas as dificuldades de comunicação, sobretudo, formal também atrapalham os candidatos. "O jovem sabe que está num processo seletivo, que a competição é muito grande e que não se comunica bem. O contato através das redes sociais, o uso da internet, é muito intenso e a comunicação fica, então, prejudicada. Também por conta da inexperiência, o jovem não se atualiza e lê muito pouco", afirma.
 
O superintendente pontua que, embora a dinâmica de grupo apareça entre as etapas mais preocupantes, nela sempre há outros participantes. "Já a entrevista é geralmente a última etapa e nela você fica frente a frente com aquele que irá decidir, com quem possui o poder de decisão final", acrescenta Oliveira.
 
De frente com o entrevistador
 
Não existe receita para uma boa entrevista, mas segurança, sinceridade e clareza de ideias podem fazer a diferença e chamar a atenção do entrevistador. O principal erro cometido por quem busca a oportunidade profissional é, pela ansiedade e nervosismo, não se perceber numa entrevista, num processo que possui suas particularidades e exigências. A principal dica dos especialistas em seleção parece ser unânime: é preciso, antes de tudo, ser verdadeiro, ser você mesmo.
 
Janice Souza, coordenadora de recrutamento e seleção da consultoria de Recursos Humanos Luandre, acredita que a entrevista deixa os candidatos nervosos por ser uma situação desconhecida. "É um novo passo, uma nova etapa na carreira profissional, tanto de pessoas que estão ingressando no mercado de trabalho quanto de pessoas que já atuam", ressalta.
 
"O nervosismo é normal", esclarece Janice. Os profissionais responsáveis pela seleção já sabem que o entrevistado estará nervoso e levarão isto em consideração. A coordenadora explica que, antes da entrevista, é traçado um perfil profissional para a vaga e que, durante a seleção, o profissional de RH buscará, no candidato, as competências que se enquadram neste perfil. "A gente avalia as habilidades, conhecimentos e atitudes dos candidatos", comenta.
 
Para garantir a compreensão do entrevistador, o candidato deve ser autêntico, transparente e deve evitar desvios da norma padrão da língua, como o uso de gírias e vícios de linguagem. O cuidado com a apresentação pessoal, o que inclui vestimenta adequada ao tipo de entrevista, ao cargo almejado ou à organização em que atuará, é ainda uma das exigências da etapa seletiva. "Às vezes, o nosso corpo fala muito mais que a nossa boca", brinca Janice.
 
Além de abordar competências e conhecimentos técnicos e específicos da área de atuação, Janice aconselha, principalmente aos que procuram uma oportunidade de estágio ou que não possuem experiência, aproveitar o espaço para ressaltar atividades extracurriculares desenvolvidas, que compõem o perfil profissional. Outros pontos fundamentais, levantados pela coordenadora de recrutamento e seleção, são o contato visual e o desuso de respostas monossilábicas, como o simples sim ou não, já que atrapalham a avaliação. "É preciso aproveitar o momento para expressar sua opinião, de forma clara e objetiva", afirma.
 
Preparação é alternativa para a hora difícil
 
A estudante Renata Ferreira de Oliveira, de 27 anos, admite que o nervosismo faz parte do momento e que há entrevistas mais fáceis e outras mais difíceis. Há pouco tempo, Renata foi selecionada para atuar em uma rede de livrarias. "A ultima entrevista de que participei foi bem coerente. Mesmo ficando um pouco nervosa, a equipe do RH e o gerente da empresa deixaram-me bem à vontade", comenta. Ao mesmo tempo, o bombardeio de perguntas a deixou um pouco aflita. "Não davam muito tempo para formular respostas", explica-se.
 
"Fiquei tenso, porém, busquei me adaptar ao clima do entrevistador e apresentar minhas características profissionais como a melhor para a vaga disponível", conta Acácio Lima de Souza, de 21 anos, quem há cerca de quatro meses conquistou a sonhada oportunidade de estágio. Depois de realizar uma entrevista por telefone e uma dinâmica, enfrentou a última etapa, que é de longe considerada por ele a mais complicada. "O que a torna difícil é o fato de ter uma pessoa bem mais experiente do que você, com uma considerável 'expertise' na área, além do conhecimento sobre a organização e sua filosofia, o que pode nos atrapalhar nas respostas de cunho pessoal, e de fatores externos, como atraso, vestimenta e pressão familiar", conclui.
 
Geralmente, Renata e Acácio se preparam para entrevistas estudando a empresa. "O site, por exemplo, é uma fonte riquíssima, lá temos a história da empresa, a visão, a missão, os valores corporativos", reforça Renata. Já Acácio compara a etapa seletiva ao vestibular. "As estratégias são as mesmas do vestibular, com uma grande dose de responsabilidade. Busco conhecer um pouco da empresa e da área que ela atua e, no dia da entrevista, levanto cedo, me alimento bem e medito", revela.
 
Quando o assunto é preparação, os estudantes Renata e Acácio são exceções. A consultoria especializada Robert Walters, também, realizou recentemente uma pesquisa em seu site, com 2.500 internautas de 20 países diferentes. Entre os profissionais que dedicam menos tempo para se preparar para entrevistas, os brasileiros se destacam. A maioria (31,8%) reserva entre 30 minutos e uma hora para a preparação, 28% menos de 30 minutos e 10,6% não se preparam.
 
Segundo Janice Souza, é importante que o candidato saiba para qual empresa e vaga está se candidatando e se de fato pretende se desenvolver de acordo com aquela cultura organizacional. Contudo, outros cuidados devem ser tomados antes da entrevista. "É importante ir bem alimentado para uma entrevista, ter uma noite anterior de descanso", alerta.
 
Já Eduardo de Oliveira lembra que, inicialmente, aspectos técnicos não são abordados e, sim, questões conceituais e de comportamento. Dessa forma, a preparação, associada ao hábito da leitura, é imprescindível. "Em primeiro lugar, antes de ir a uma entrevista, procure, pesquise, busque na internet informações sobre a empresa na qual irá fazer a entrevista. Procure se antecipar, pratique o habito da leitura, mantenha-se atualizado", sugere o superintendente do Ciee.
 
Ciee promove cursos à distância para a preparação de estudantes
 
Atendendo à preocupação dos jovens consultados em seu site e buscando incluí-los no mercado de trabalho, o Ciee oferece cursos à distância gratuitos destinados aos estudantes que almejam se preparar para etapas seletivas de estágio. Entre as opções, destaca-se o curso "Entrevista: como encará-la", o qual aborda o processo da entrevista, as diferentes modalidades utilizadas pelos recrutadores e como o participante deve se comportar antes, durante e depois da etapa.
 
Pensando nas demais fases das seleções, são ofertados os cursos "Dinâmicas e testes", que apresenta as melhores atitudes em trabalhos em equipe, voltando-se para as dinâmicas de grupo, e o "Currículo sem segredos", que propõe dicas acerca da elaboração do documento, como a organização adequada da formação acadêmica e dos cursos realizados, estratégias para demonstrar o potencial do candidato, seus planos e expectativas profissionais, e a utilização de linguagem objetiva. Há capacitação, também, em conhecimentos específicos para diversas carreiras, como redação, Matemática, Matemática Financeira e Informática.
 
Para participar, é preciso se cadastrar no site do Ciee www.ciee.org.br, com o perfil de estudante, estagiário ou aprendiz, e ter acesso regular à internet. Após receber o login e a senha de acesso, o estudante pode iniciar o curso imediatamente. Ao longo da formação, o participante recebe orientação de um tutor, responsável por esclarecer dúvidas e resolver possíveis problemas.  

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