Desigualdade racial no mercado de trabalho: precisa-se falar disso

Folha+ conversou com especialistas sobre como as empresas têm procurado ser mais diversas e como diminuir a desigualdade racial no mercado de trabalho.

20/11/2020 08:00

Por: Audryn Karolyne

20/11/2020 08:00 - Por: Audryn Karolyne

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 54% da população brasileira é negra. No entanto, números do IBGE de 2018 mostram que a maior parte dos trabalhadores em situação informal são negros.

Uma pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) revela ainda que mulheres brancas recebem 70% a mais do que mulheres negras. Em um ano marcado pela morte de George Floyd por um policial branco, nos Estados Unidos, e protestos ao redor do mundo, levanta-se ainda mais a questão de como reduzir a desigualdade racial no mercado de trabalho.

O professor e coordenador de Diversidade da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV EAESP), Márcio Macedo, afirma que o 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, em 2020, ganha um caráter especial justamente devido a esses acontecimentos.

A data é importante porque dá visibilidade às contribuições, problemas e demandas da população negra do Brasil.

“No restante do ano devemos buscar formas de elaborar e implementar políticas públicas e ações no mercado e sociedade civil que visem combater o racismo e a desigualdade racial”, afirma o professor. “Somos menos criativos, inteligentes e inovadores em todas as áreas quando mantemos nosso velho racismo vivo e atuante.”

→ O que você precisa saber sobre cotas raciais?

professor Márcio Macedo, coordenador de Diversidade da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV EAESP)
Professor Márcio Macedo destaca a importância de, durante todo o ano, buscarmos
políticas para combater o racismo e a desigualdade racial (Foto: Arquivo Pessoal )

 

Sérgio Luis do Nascimento, professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), integrante no Núcleo de Direitos Humanos da instituição e especialista em discursos racistas e relações raciais, livros didáticos, educação e currículo, explica que a desigualdade racial se reflete em áreas como:

  • Educação
  • Inclusão digital
  • Mercado de trabalho
  • Sustento e bem estar
  • Escolaridade
  • Acesso ao ensino superior

Por que o Dia da Consciência Negra é comemorado no 20 de novembro?

Até a década de 1970, comemorava-se o Dia da Consciência Negra no dia 13 de maio, data da abolição da escravatura. Em um breve recorte, podemos explicar que a mudança para o dia da morte de Zumbi de Palmares (1655-1695), chefe do Quilombo dos Palmares, se deu em conta de um revisionismo histórico do movimento negro.

A figura da Princesa Isabel como “redentora” passou a ser considerada uma atitude paternalista e que apagava o protagonismo da população negra no processo abolicionista.

O professor Sérgio Luis afirma que, celebrar o 20 de novembro “reforça a luta antirracista, resgata a importância dos direitos humanos e torna a luta de personagens como Tia Ciata, Luis Gama, Beatriz Nascimento, Marielle Franco viva e ativa, tornando a vida pensante, intensa e tensa na luta por direitos e todas questões relacionadas à população negra, mulheres e índios.”

A data é importante por reforçar pautas e reivindicações relacionadas a:

  • Igualdade salarial
  • Oportunidade nos diferentes setores da sociedade, seja nos órgãos públicos ou privados
  • Combate ao racismo
  • Combate ao sexismo
  • Combate à xenofobia

Por que falamos em consciência negra e não em “consciência humana”?

Outra reivindicação do 20 de novembro é comprovar que não existe uma democracia racial no Brasil, fruto do período da escravidão que se reflete até hoje. Por isso, é importante retomar pautas como o multiculturalismo e a interseccionalidade. É preciso reconhecer que somos um país multiétnico, que deve incorporar em todas suas instâncias os valores e as contribuições da população negra.

 

Sérgio Luis do Nascimento é professor da PUC-PR
Professor Sérgio Luis afirma que celebrar o 20 de novembro reforça a
luta antirracista e resgata a importância dos direitos humanos

 

No entanto, ainda há quem afirme que deveria ser comemorado um dia da consciência humana em vez da consciência negra. O professor Márcio explica que, na verdade, essa é uma forma de esvaziar as pautas identitárias a partir de posicionamentos como o racismo reverso, conceito que não se sustenta por uma questão teórica.

“Essa mesma tentativa é vista quando grupos que questionam a legitimidade e as demandas do movimento ‘Black Lives Matter’ bradam temas como ‘All Lives Matter’”, exemplifica Márcio Macedo com a frase que movimentou as redes sociais - vidas negras importam, em tradução para o português - após o assassinato de Goerge Floyd.

Quando se fala algo do tipo, ignora-se que a noção de consciência negra emerge de um contexto marginalizado, em que os elementos vinculados à identidade negra eram vistos e associados a aspectos negativos.

Sérgio Luis Nascimento acrescenta ainda que esse tipo de pensamento é especialmente perigoso em um período que se tem rejeitado a pesquisa, dados e a ciência. 

“Justamente são esses setores que escancaram as desigualdades étnico racial entre a população negra e a população branca nos setores cruciais de uma sociedade que se clama como ‘democracia racial’”, explica o professor de Filosofia. “Nesse caso, seria importante perguntar às pessoas que tentam sustentar essa ideia de consciência humana: como falar em consciência humana durante todo o período escravocrata, da segregação racial, do apartheid?”

Como as reflexões do Dia da Consciência Negra podem refletir no mercado de trabalho?

Os protestos relacionados ao assassinato de George Floyd também refletiram em ações de empresas que têm procurado aumentar o seu banco de talentos negros, com vagas voltando-se até mesmo com exclusividade para essa parte da população.

Márcio Macedo considera que o mercado de trabalho é um dos espaços em que o racismo e a desigualdade racial atuam de forma mais incisiva. Isso tem feito com que empresas reconfigurem seus programas ou iniciem novas iniciativas para remodelar esse cenário.

→ Com foco em educação e diversidade, Nubank contrata analista negro

Além disso, também tem sido revista a forma com que as seleções são feitas e o uso da meritocracia como forma de se opor à políticas de diversidade. Rever a desigualdade é uma questão de responsabilidade social.

É um sinal de que a organização está sintonizada com tendências corporativas globais, como ter uma equipe diversificada do ponto de vista racial, de gênero, classe e identidade sexual. Ainda assim, são ações tímidas, ainda vistas com medo, receio e desconfiança por muitos, principalmente devido ao olhar negacionista que a problemática racial recebe no Brasil.

Sérgio Luis do Nascimento considera que a sociedade brasileira deva se orgulhar que alguns setores do mercado empregatício percebem a importância da diversidade. A construção de uma consciência e de luta pelo respeito é graças aos movimentos sociais negros que, desde a década de 1930 com a Frente Negra, cobravam do Estado compromisso com ações de inserção da população negra no mercado de trabalho.

Quer receber mais conteúdo como este?

Cadastre-se para receber e-mails com asnotícias em destaque da semana, com dicas de Carreiras, vagas de empregose muito mais!

Buscador de empregos

Milhares de oportunidade de emprego grátis